A violenta medida do Banco Central

Fonte: Gazeta do Povo – publicado em 07/12/2010

Consideramos uma violência, especialmente na época do Natal, a medida anunciada na última sexta-feira pelo Banco Central que visa reduzir o dinheiro para empréstimos no mercado, retirando R$ 61 bilhões da economia e, mais uma vez, onerando os consumidores e o empresariado. Ela vem na contramão de tudo o que os atuais e os futuros governantes vêm afirmando sobre o estímulo ao maior consumo de todas as classes sociais, especialmente as C, D e E. Essa forma de impor juros mais altos para os consumidores é desastrosa e nos parece que, a essa altura, é uma maneira de o governo Lula evitar a queima de capital político de Dilma. Com tal intervenção, o governo fará com que as pessoas consumam menos e as empresas invistam menos, enquanto a gastança (e não o investimento) administrativo/político do governo permanecerá a mesma. Temos a certeza de que, sem interferir no consumo dos brasileiros, o governo atual, ou o futuro, poderia agir de maneira mais eficaz e menos contracionista para evitar o fantasma inflacionário.

A expectativa dos comerciantes para as vendas do Natal deste ano era de que elas seriam maiores do que as do mesmo período do ano passado. Essa expectativa pode ser frustrada. Além disso, a grande maioria dos bens atingidos por tal medida, como veículos, por exemplo, não é geradora de inflação. Há mais: nesta época, as empresas já fizeram seus estoques baseadas em previsões e neste ano, em especial, otimistas. Imagine as consequências em termos de capital de giro, pois há compromissos assumidos pelas empresas baseados nas previsões de comercialização.

Digamos que as empresas necessitem recorrer aos bancos com os juros ainda mais elevados. Há resultados danosos para toda a cadeia produtiva.
A origem primária da temida pressão inflacionária, com quem realmente não queremos proximidade, está na gastança pública. Medidas como esta anunciada pelo Banco Central, que inibem o crescimento do país, poderiam ser evitadas se houvesse contenção real na expansão dos gastos públicos. O setor público consome atualmente 20% da riqueza nacional; o setor privado, outros 62%, e ficamos com apenas 18% para investimentos. Deveríamos segurar o gasto público, que cresceria em percentuais sempre bem menores do que nosso PIB, para evitar a falta de investimentos na produção e em infraestrutura, evitando, assim, medidas fora de propósito como essas tomadas pelo Banco Central. Até porque a intervenção no sistema bancário, elevando o adicional de compulsório sobre depósitos à vista e a prazo de 8% para 12%, reduzindo o dinheiro disponível para consumo, nos parece desnecessária.

No Brasil não existe o risco do sistema bancário e financeiro ficar fragilizado. Ao contrário, ele foi robustecido, ao longo dos anos, com a cobrança de altas taxas de juros. Portanto, não corremos o mesmo risco que houve nos Estados Unidos e em outros países em crise recente.

A decisão anunciada pelo Banco Central na última sexta-feira pode acarretar problemas para toda a cadeia produtiva, causando desemprego e outras mazelas de um país que pode entrar em desaceleração econômica. Encolhe-se o país na proporção da pequenez e fragilidade de sua infraestrutura, em vez de melhorá-la e fortalecê-la, proporcionando o agigantamento do país e do desenvolvimento de sua população.

Edson Ramon é presidente da Associação Comercial do Paraná.