Geopolítica e economia global exigem estratégia diante de um cenário de incertezas
06 de nov de 2026 | Escrito por ACP
As transformações na geopolítica mundial, a disputa por influência entre grandes potências e os reflexos das mudanças econômicas nos mercados estiveram no centro do encontro “Geopolítica Mundial e Nova Ordem Mundial”, realizado nesta quarta-feira (04.11), pela Associação Comercial do Paraná (ACP), em parceria com o Conselho de Negócios e Relações Internacionais (Coninter). A proposta foi reunir diferentes perspectivas para compreender os movimentos que estão redesenhando as relações internacionais e identificar caminhos para empresários e profissionais diante de um ambiente cada vez mais instável.
Foram convidados para apresentar o tema: Luiz Carlos Borges da Silveira (médico e empresário), Masimo Della Justina (professor), Eugênio Stefanello (engenheiro agrônomo) e Constantin Jancsó (economista). O professor e economista José Pio Martins ficou com a responsabilidade de mediar o encontro e fazer as considerações finais, e Antonio Caron também participou como palestrante.
Ao abrir o encontro, o coordenador do Coninter, Antoninho Caron, destacou a importância de criar espaços permanentes de reflexão sobre o cenário internacional. O projeto prevê novas sessões de debates nos próximos anos, com possíveis parcerias. “Precisamos compartilhar informações, dividir nossas angústias e ansiedades e, principalmente, encontrar caminhos de luz diante das incertezas. O objetivo é oferecer aos empresários condições para analisar ameaças, identificar oportunidades e definir estratégias para seus negócios”, afirmou.
O presidente da ACP, Paulo Mourão, deu as boas-vindas aos participantes e ressaltou a relevância do tema para diferentes setores da sociedade. “A nova ordem mundial tem influência direta sobre o futuro das nações. Reunir pessoas qualificadas, preocupadas com o passado, o presente e o futuro, é fundamental para discutir os impactos dessas transformações na geopolítica, na agricultura, no meio ambiente, nos negócios internacionais e na vida em geral”, destacou.
População e poder
O professor José Pio Martins apontou o crescimento populacional como um dos grandes desafios globais, especialmente diante das pressões sobre recursos naturais, produção de alimentos e sistemas econômicos. Também destacou o papel da ciência, da tecnologia e das revoluções industriais na transformação da humanidade. Ao analisar os ciclos de globalização e a atual tendência de desglobalização, chamou a atenção para questões como o endividamento público, as crises migratórias e as mudanças tecnológicas. “A evolução da ciência, do conhecimento e da tecnologia foi determinante para transformar a humanidade. Agora, precisamos compreender como essas mudanças, somadas ao crescimento populacional, vão impactar a economia e a organização das sociedades”, observou.
Luiz Carlos Borges da Silveira destacou que guerras e disputas por poder são determinantes na reorganização da ordem mundial. Questionou a capacidade de atuação da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente diante das limitações do Conselho de Segurança, quando falou sobre conflitos históricos e contemporâneos. Também chamou a atenção para as tensões envolvendo Rússia, Ucrânia e Oriente Médio e para o protagonismo econômico da Ásia. “As guerras, os conflitos e as disputas por poder são fatores que moldam a ordem mundial. A ONU foi criada para preservar a paz, mas hoje enfrenta dificuldades para exercer esse papel diante dos interesses e das decisões das grandes potências”, avaliou.
Autor do livro “Geopolítica: crepúsculo e aurora”, Masimo Della Justina abordou a relação entre poder político, economia e controle de recursos naturais. Em sua análise, as disputas entre Estados Unidos, China e Rússia estão diretamente relacionadas ao acesso a minerais, energia e rotas comerciais estratégicas. O palestrante também alertou para a posição dos países periféricos na economia internacional. “A geopolítica não se resume aos conflitos militares. O controle dos recursos naturais, das fontes de energia e das rotas comerciais é parte fundamental da disputa pelo poder. Os países que não desenvolvem sua indústria acabam permanecendo na condição de fornecedores de matérias-primas”, analisou.
O desafio brasileiro
Ao apresentar um panorama da economia mundial, Antoninho Caron destacou a participação de Estados Unidos e China no PIB global, estimada em 28% e 21%, respectivamente, e comparou o crescimento econômico de diferentes países nas últimas décadas. Para ele, o Brasil perdeu oportunidades importantes de desenvolvimento e precisa fortalecer três pilares para ampliar sua integração econômica: democracia, estrutura industrial e capacidade tecnológica. “Defendo a industrialização e a exportação de produtos com maior valor agregado. E ressalto as vantagens brasileiras em água, alimentos, energia e minerais, mas alerto para riscos como a concentração de mercados, a concorrência asiática, o custo do capital e as barreiras comerciais”.
Eugênio Stefanello trouxe a discussão para o agronegócio, setor que representa aproximadamente 25% do PIB brasileiro e tem papel decisivo na balança comercial. Apesar das perspectivas positivas para a produção e as exportações no longo prazo, alertou para dificuldades no curto prazo, influenciadas pelas condições climáticas e pela instabilidade econômica e geopolítica. Diante das incertezas, recomendou atenção redobrada à gestão financeira. “As empresas precisam olhar com muito cuidado para os custos e o fluxo de caixa. Da mesma forma, as pessoas físicas devem procurar poupar parte dos seus ganhos para não dependerem de terceiros”, orientou. Entre as oportunidades para o país, mencionou os segmentos de grãos, carnes, frutas, café, etanol, papel e celulose.
O economista Constantin Jancsó, com experiência em mercados internacionais, analisou os desafios fiscais brasileiros e os reflexos do cenário externo sobre a economia nacional. Entre os pontos de preocupação estão o crescimento das despesas previdenciárias, os custos da saúde pública e o endividamento do país, estimado em aproximadamente 85% do PIB. Também chamou a atenção para o descompasso entre o aumento da renda das famílias e a estagnação do consumo, atribuindo parte desse cenário ao endividamento e ao comprometimento dos rendimentos com crédito e parcelamentos. “O aumento da renda não está se convertendo na mesma proporção em consumo. O endividamento das famílias compromete parte importante dos ganhos mensais, especialmente entre as faixas de menor renda”, analisou.
Integra do evento em: https://www.youtube.com/watch?v=MlJtjTTAILw





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