ACP reúne especialistas para debater a aplicação da NR-1 e riscos psicossociais
14 de ago de 2026 | Escrito por Tobias Dietterle
A atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1) coloca as empresas diante dos desafios de identificar, avaliar e gerenciar os riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho. Mais do que atender a uma exigência regulatória, a mudança amplia a responsabilidade das organizações na construção de ambientes mais saudáveis, seguros e preparados para lidar com questões relacionadas à saúde mental, às relações profissionais e à sustentabilidade dos negócios.
Foi nesse contexto que a Associação Comercial do Paraná (ACP) promoveu nesta quinta-feira (13.08), o evento “NR-1 na prática: da norma à implementação”, em parceria com o Conselho de Ação para a Sustentabilidade Empresarial (CASEM), o Conselho de Relações Trabalhistas (CRT) e o Conselho da Mulher Empresária (CME). Conduzido por Renata Rochi, do CME, o encontro reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir caminhos capazes de transformar as diretrizes da norma em práticas efetivas de prevenção e gestão.
Saúde e segurança
A programação contou com a participação de Marcos Malhadas, advogado, professor e coordenador do CRT; Edelcio Jacomassi, economista e mestre em Gestão Estratégica, especialista em planejamento, liderança e desenvolvimento organizacional; Paula Schuindt, mentora de liderança, analista comportamental e coordenadora da Câmara Setorial de Coaching da ACP; e Renata Fagundes, especialista e consultora em sustentabilidade, responsabilidade social, diversidade e inclusão.
Na abertura, representando o presidente da ACP, Paulo Mourão, o vice-presidente e coordenador do Conselho de Negócios e Relações Internacionais (CONINTER-RI), Antoninho Caron, ressaltou a importância da troca de conhecimentos para enfrentar os desafios do mundo do trabalho. Já Edilson Ribeiro, coordenador do CASEM, reforçou que saúde e segurança devem ser incorporadas à estratégia empresarial. Para Jessica Rochi, o momento exige avançar da avaliação para a gestão efetiva dos riscos. “A orientação inicial era avaliar; agora, o foco central mudou para a gestão efetiva dos riscos identificados”, afirmou.
Bem-estar dos trabalhadores
Em sua abordagem, Edelcio Jacomassi destacou que uma organização saudável é aquela capaz de conciliar bem-estar dos trabalhadores, produtividade e sustentabilidade do negócio. A gestão dos riscos psicossociais deve partir de uma mudança cultural, e não apenas do cumprimento de uma exigência legal. “A palavra-chave de uma organização saudável é evitar o sofrimento. O ambiente, as relações interpessoais e a gestão do trabalho precisam ser conduzidos de forma a gerar produtividade e satisfação, e não sofrimento para o trabalhador”, afirmou.
Mais do que uma obrigação regulatória, a NR-1 pode se transformar em uma vantagem competitiva ao reduzir passivos, acidentes, doenças ocupacionais, conflitos, turnover e perdas de produtividade decorrentes do absenteísmo e do presenteísmo. “A gestão de riscos não pode servir apenas para atender à fiscalização. Ela precisa ser uma busca contínua por um ambiente produtivo e saudável”, defendeu. Para isso, recomendou que as empresas façam diagnósticos estruturados dos fatores de riscos psicossociais, estabeleçam uma matriz de probabilidade e severidade e transformem os resultados em planos de ação com prioridades, responsáveis, recursos e prazos definidos.
Jacomassi reforçou que a efetividade da NR-1 depende de uma gestão contínua, integrada à ergonomia e às práticas de liderança, comunicação, reconhecimento, jornada, metas, relações interpessoais e segurança psicológica. “O objetivo não é tratar apenas o sintoma, mas identificar a causa raiz do problema e agir sobre ela. A adequação à norma deve integrar uma estratégia de sustentabilidade, produtividade e perenidade dos negócios.
Diversidade, inclusão e pertencimento
Já Renata Fagundes mostrou a relação direta entre a gestão da diversidade, equidade, inclusão e pertencimento (DEIP) e a prevenção dos riscos psicossociais. A NR-1 deve ser compreendida como uma oportunidade de transformar práticas de inclusão em mecanismos concretos de proteção e cuidado no ambiente corporativo. “Mais do que pensar em como promover a diversidade, precisamos olhar para os métodos e procedimentos capazes de prevenir os riscos psicossociais. A NR-1 cria uma ponte entre a gestão da diversidade e a construção de ambientes mais acolhedores, inclusivos, respeitosos, seguros e justos”, afirmou.
Segundo a especialista, a gestão de DEIP não pode ser vista apenas como uma agenda de cultura. “Ela também é uma ferramenta de gestão de riscos, com impactos na saúde, na conformidade legal, na sustentabilidade e nos resultados financeiros da organização”, explicou. E recomendou que as empresas ampliem o olhar sobre fatores discriminatórios, vieses inconscientes, assédio, segurança psicológica e relações de trabalho, além de preparar as lideranças para reconhecer e enfrentar comportamentos excludentes. Também defendeu indicadores capazes de revelar desigualdades na retenção, na ascensão profissional e no retorno das mulheres após a licença-maternidade, entre outros recortes.
“A verdadeira inclusão exige olhar para a vida como ela é e traduzir essa realidade em indicadores concretos de permanência, crescimento profissional e responsabilidade social”, afirmou. Ambientes plurais e psicologicamente seguros reduzem riscos, favorecem a inovação, melhoram o desempenho e contribuem para organizações mais resilientes.
Liderança e ambientes saudáveis
“Os riscos psicossociais estão diretamente relacionados à forma como as pessoas são lideradas e às condições do ambiente de trabalho”, pontuou Paula Schuindt. “O ambiente molda nossos comportamentos e nossas crenças. Quando não existe segurança psicológica, o cérebro permanece em estado de alerta e ameaça, e isso, ao longo do tempo, leva ao esgotamento físico e emocional”, afirmou. O problema não está apenas nas tarefas ou na remuneração, mas principalmente na qualidade das relações estabelecidas no trabalho.
Ao abordar o papel das lideranças, Paula defendeu que o desenvolvimento da inteligência emocional deve ser parte da preparação dos gestores. “O líder precisa primeiro aprender a reconhecer e administrar as próprias emoções. Depois, desenvolver flexibilidade para lidar com diferentes perfis e compreender o impacto do seu comportamento sobre as pessoas”, explicou. Recomendou que as empresas invistam em autoconsciência, autorregulação e empatia, além de adaptar comunicação, delegação e definição de metas aos diferentes perfis comportamentais.
Paula reforçou que a prevenção dos riscos psicossociais exige uma mudança na cultura de liderança, com foco em relações mais saudáveis, segurança psicológica e desenvolvimento comportamental. “Quando o líder domina a inteligência emocional e comportamental, ele consegue extrair o melhor de si e da equipe, alcançar resultados superiores de forma sustentável e, ao mesmo tempo, reduzir os riscos para as pessoas e para a empresa”.
Segurança jurídica e fiscalização
O cenário jurídico relacionado à NR-1 e à NR-17 e os desafios provocados pela evolução das relações de trabalho foram apresentados por Marcos Malhadas. A organização do trabalho precisa ser analisada sob a perspectiva dos conflitos que chegam à Justiça, como assédio moral, sobrecarga e adoecimento ocupacional. “O mundo do trabalho evolui muito mais rápido do que a legislação. Hoje, muitas das demandas que chegam à Justiça do Trabalho já não estão concentradas apenas em horas extras, mas em doenças ocupacionais e nos reflexos dos acidentes de trabalho”.
A prevenção deve começar dentro das empresas, especialmente por meio da atuação do RH e do mapeamento adequado dos fatores de risco psicossocial, avaliou. A omissão diante de sinais de sobrecarga, assédio ou desorganização do trabalho pode gerar responsabilidade civil e ampliar o passivo trabalhista. “Se a empresa identifica o problema e demonstra que está agindo para preveni-lo, ela evidencia uma gestão diligente e de boa-fé”, explicou. Malhadas recomendou que os riscos sejam registrados no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) a partir das condições de trabalho, sem transformar a avaliação em diagnóstico individual de doenças. Entre as medidas estão pesquisas e ferramentas de avaliação, classificação dos riscos por probabilidade e impacto e planos de ação com iniciativas como capacitação de lideranças, canais de denúncia, revisão da carga de trabalho e políticas de desconexão.
Por fim, Malhadas observou que enfrentar temas como assédio, liderança tóxica, diversidade e sobrecarga representa uma estratégia de proteção jurídica, produtividade e reputação. “Garantir respeito e segurança no ambiente profissional é também uma forma de preservar a própria organização”.
Fotos: Higor











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